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Cora Coralina

O que você faria se tivesse 76 anos de idade? Pensou? Com certeza Cora Coralina, uma das mais proeminentes escritoras brasileiras fugiu a regra da maioria da população idosa, que com essa idade só pensa em descansar, natural e mais que justo. Só que esta brasileira foi além. Agosto é o mês do 123º aniversário de nascimento de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas ou Cora Coralina como é conhecida pelo público. Com esta idade lançou o seu primeiro livro “Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais”.


Pessoa simples, doméstica, doceira por profissão, não acompanhava os movimentos literários da época e seus modismos, coisa que influenciou a sua carreira literária grandemente. A riqueza poética encontrada nas suas obras mostra um Brasil provinciano, matuto, do dia-a-dia do brasileiro típico do interior em especial da sua cidade natal Goiás, também conhecida como Goiás Velho ou Cidade de Goiás interior do Estado de Goiás.

Apesar da tardia publicação de seu primeiro livro, ela começou degustar o sabor das letras bem cedo. Com idade de 14 anos, já escrevia para jornais e em periódicos, ainda com pouca escolaridade levou a sério o talento que despontava timidamente.


Abaixo um resumo do texto sobre a vida e obra de Cora Coralina, produzido por Clovis Carvalho Britto (UnB). Conteúdo completo disponível para download aqui:


‘Sim, foi naquele meio, afastado de tudo o que me prendia, sozinha,
longe da vida de meus filhos (porque uma mãe quando mora com os
filhos vive a vida de todo o mundo, menos a dela). Quando eu senti
uma necessidade imprecisa, obscura de me por de longe, eu tinha
qualquer coisa que me forçava a isso. Em Goiás, vamos dizer assim,
abriram-se as portas do pensamento e escrevi o primeiro livro
publicado” (Cora Coralina, In: ARAÚJO, 1977).
(...)
“Meus amigos me esqueceram. As revistas que apareceram em Goiânia,
jamais me pediram uma crônica sequer. Eu poderia ter colaborado e
muito. Havia muita coisa a ser escrita dentro da história de Goiás.
Preferiram encomendar crônicas de fora, Eneida e outros nomes, que
falavam da Guanabara. Eu fui ficando de lado, angustiada, aborrecida,
frustrada. Por isso dediquei-me de corpo inteiro a fabricação de doces,
sem deixar de escrever meus contos e poemas. É uma espécie de
revolta que tenho comigo. Escrevi bastante naquela época, mas nunca
bati na porta de ninguém para a publicação de meus trabalhos. (...) Ai
está o motivo de meu apego aos doces, é uma réplica a esse alheamento
que os jornais fizeram da minha pessoa literária (In: JORGE, 1968).

(...)

“O grande livro de amor de quem como eu só teve uma escola primária:
o dicionário. Dicionário é um livro de amor, o meu livro de amor. Eu
fazia doce, mas meu dicionário estava na mesa da cozinha: cheio de
melado, de dedada de manteiga, de melado, de gema de ovo. E me
valeu. Hoje, jovem não abre dicionário, jovem não abre dicionário (In:
Cora Coralina, aos 92 anos, 1981)”.


Lindo demais
Coração é terra que ninguém vê
Quis ser um dia, jardineira
de um coração.
Sachei, mondei - nada colhi.
Nasceram espinhos
e nos espinhos me feri.
Quis ser um dia, jardineira
de um coração.
Cavei, plantei.
Na terra ingrata
nada criei.
Semeador da Parábola...
Lancei a boa semente
a gestos largos...
Aves do céu levaram.
Espinhos do chão cobriram.
O resto se perdeu
na terra dura
da ingratidão
Coração é terra que ninguém vê
- diz o ditado.
Plantei, reguei, nada deu, não.
Terra de lagedo, de pedregulho,
- teu coração. Bati na porta de um coração.
Bati. Bati. Nada escutei.
Casa vazia. Porta fechada,
foi que encontrei...
(Cora Coralina)



Conto: Minga, zóio de prata - Cora Coralina

Eram elas as senhoras-donas, ali no beco do Calabrote. Quem transitasse pelo beco, tivesse cuidado... Passasse quieto e bonzinho. Não se engraçasse nem fizesse cara de pouco. E quem fosse de entrar, empurrasse a porta de dentro, com fala curta e dinheiro pronto. Escândalo de mulher-dama não dava; nunca deu; também, nunca foram levadas, como tantas, para capinar na frente da cadeia. Família de respeito podia passar toda hora, não via nada. Macho, porém, que não se fizesse de besta... Eram donas e autoridade no beco. O beco era delas. E tinham prestígio.

Duas irmãs, morando juntas na mesma casa, de porta e janela aberta aos homens que quisessem entrar; isso a Zóio de Prata. Já a Dondoca, tinha seu homem e era pontual a ele só.Também eram conhecidas por As Cômodas, na roda da macheza. Minga era durona. Não tretasse com ela, saindo sem deixar a taxa... Um que tentou a rasteira, ela alcançou já fora do beco e deixou sem as calças no meio da rua.

Tinha mesmo um bugalho branco, saltado, e era vesga do outro. Espinhenta, de cabelo sarará, mulatona encorpada, de bacia estreita, peito masculino, de mamilos duros, musculosa; servindo bem no ofício, de fala curta, braço forte, mãos grandes.

Um dia, voltava ela do mercado com um frango na mão, deu de cara com a irmã chorando, de cara amassada e beiço partido. Tinha entrado na peia do amigo — o Izé da Bina — à-toa, ruindade de pingado ordinário. Dei'stá — disse ela — sai fora e deixa por minha conta. Óia, vai depená esse frango pra nóis na casa da vizinha e só entra quando eu chamá...

Dondoca foi fazer o mandado. Estava ela na casa da vizinha depenando o frango, quando chegou o Izé da Bina, todo mandante, de paletó preto, gravata borboleta, calça engomada.

Entrou no quarto e gritou autoritário pela Dondoca. Quem apareceu foi a Zóio de Prata, de manga arregaçada e porrete na mão. Atirou-se no mulato com vontade e foi porretada de direita e canhota. Bateu com sustância, sovou com fôlego, quebrou as carnes, moeu bem moído. No fim, jogou fora o cacete e entrou de corpo. Numa boa sobarbada deu com o crioulo no chão. Sentou em cima e esmurrou à vontade. Quebrou as ventas, partiu dois dentes, entrou no olho... xingou nomes... desses de ouvindo dizer o Antônio Meiaquarta, tipo de rua, rei dos bocas-sujas da cidade: eu sei dois contos e quinhentos de nomes indecentes... Zóio de Prata sabe cinco contos... apanhei dela, bateu em mim... tou descarado, apanhei dela... muié praceada... êta muié sagais.

Depois de ver o cabra mole, estirado, fungando, Zóio de Prata assungou a saia, abriu as pernas e mijou na cara de Izé da Bina. Estava vingada a Dondoca e consolidada a fama das Cômodas.



Conto: Conclusões de Aninha - Cora Coralina


“Estavam ali parados. Marido e mulher.
Esperavam o carro. E foi que veio aquela da roça
tímida, humilde, sofrida.
Contou que o fogo, lá longe, tinha queimado seu rancho,
e tudo que tinha dentro.
Estava ali no comércio pedindo um auxílio para levantar
novo rancho e comprar suas pobrezinhas.
O homem ouviu. Abriu a carteira tirou uma cédula,
entregou sem palavra.
A mulher ouviu. Perguntou, indagou, especulou, aconselhou,
se comoveu e disse que Nossa Senhora havia de ajudar
E não abriu a bolsa.
Qual dos dois ajudou mais?
Donde se infere que o homem ajuda sem participar
e a mulher participa sem ajudar.
Da mesma forma aquela sentença:
"A quem te pedir um peixe, dá uma vara de pescar."
Pensando bem, não só a vara de pescar, também a linhada,
o anzol, a chumbada, a isca, apontar um poço piscoso
e ensinar a paciência do pescador.
Você faria isso, Leitor?
Antes que tudo isso se fizesse
o desvalido não morreria de fome?
Conclusão:
Na prática, a teoria é outra”.




Por: Francine Torquato

Fonte de pesquisas:
1) UM TETO TODO SEU: O ITINERÁRIO POÉTICO-INTELECTUAL DE CORA CORALINA (Clovis Carvalho Britto (UnB))
2) Site: releituras.com
Fonte das Imagens: Clique com o botão direito do mouse na imagem para ver a fonte no rodapé da página.

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