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Bill e a Bomba Jamaicana


Sempre fui bem com as mulheres. E olha que não tenho dinheiro, e nem sou tão bonito assim. Tudo bem, vá lá, eu sou bonito. Melhor do que isso, a minha experiência adquirida em minha adolescência é o melhor em mim: sei tudo sobre as mulheres, o que elas gostam, o que elas querem e tudo o que você possa imaginar. E, na verdade, é a isso a que se deve o meu sucesso com elas, e não ao meu rostinho bonito.

Partindo desse princípio, procurei um emprego em que eu tivesse que usar uniforme. É... elas adoram! A origem dessa preferência, eu não sei, deve ser fetiche, sei lá. Sou cobrador de ônibus na única empresa do ramo em Nova Friburgo e, cara, as gatas quando entram no coletivo, nem vão lá para frente, tomar seus assentos: permanecem ali ao meu lado, conversamos a viagem inteira. Não consegui pegar todas, é verdade, mas eu estou sempre acompanhado, e muito bem acompanhado, diga-se de passagem.

Outro ponto é o meu nome. Chernobill, com dois éles. Minha mãe é nordestina, e sabe o que eu descobri sobre eles? Adoram nomes estrangeiros. É verdade, conheço um monte de Gladson, Clayton, e Stephany por aí. Comigo não seria diferente. Mas Chernobill foi sacanagem, fui zoado por anos na escola, até que descobri como levar vantagem com ele. Certa vez perguntaram meu nome só para sacanear com uma aluna nova – Marina, muito gatinha – e eu respondi, de forma teatral, “Meu nome é Bill, Chernobill.” As risadas foram inevitáveis, mas agora, não era para me zoar, a galera achou bacana, e principalmente a Marina, que me achou super descolado, e já sabem, o papai aqui a pegou muito. De lá para cá só me apresento assim, e sempre dá certo. Obrigado mamãe!

Pois é, outro dia desses estava no meu trampo, o ônibus parou no ponto e entrou uma única pessoa: uma morena cavala, cavala mesmo, tinha os cabelos bem negros, feito uma índia, os diminutos pelos de seu braço eram delicados e dourados (imaginem o resto!).

Ela subiu as escadas com um sorriso maravilhoso, ofegante e já foi logo me dando um “bom dia”.

- Bom dia! - disse ela abrindo a bolsa com dificuldade, antes da roleta.

- Pode passar! - eu disse, tentando ser solícito, e imitando seu sorriso, também simpático. Ela agradeceu e finalmente achou o dinheiro e me pagou.

- Desculpe, eu ainda não me acostumei com os horários dos ônibus... - comentou ela ainda sorriso.

- Se mudou há pouco tempo, não é?

- Como você sabe? - perguntou-me, um tanto desconcertada.

- Bem, eu trabalho nessa linha deve ter uns seis meses, e nunca a vi por aqui. Se tivesse, eu com certeza me lembraria. - respondi olhando-a nos olhos. Outro segredo, anotem: sempre olhem nos olhos das gatas. Ela ruborizou na hora, estava dando certo.

- Pois é... - disse ela retomando a conversa. E isso foi bom, ela poderia muito bem ter pego seu troco e ido tomar seu lugar, mas não fez; sinal que a conversa estava sendo interessante.

- Está indo pro trabalho?

- É... consegui um emprego numa confecção...

- Não trouxe agasalho? Vai fazer frio hoje... (Novidade! Fazer frio em Friburgo era quase uma redundância)

- Caramba, será mesmo? - disse ela alisando os braços. Meu olhar foi como um close de cinema naquela pele morena e apessegada. Voltei a mim e respondi.

- Com certeza. Quando as nuvens cobrem o pico da Caledônia, pode acreditar, vai esfriar. - disse apontando para o maciço rochoso.

- Poxa, obrigada pela dica, amanhã vou me precaver. Olha, eu acho que meu ponto é o próximo, vou descer. Tchau, beijo... - despediu-se ela mandando-me um beijo. Cara, você acredita? Ela me mandou um beijo! Aquela cena eu vi em câmera lenta, e se eu tivesse o poder de providenciar um replay, com o nome piscando em amarelo no canto da tela, eu o faria.

No dia seguinte, no mesmo bat-horário, no mesmo bat-canal, lá veio a morena subindo no ônibus.

- Caramba, bem tu falou, está fazendo frio para caramba! - disse ela, bem agasalhada dessa vez.

- Não disse? - concluí cheio de moral. - Desculpe, a gente está conversando, e eu nem sei seu nome, sabe, eu gosto de saber o nome das pessoas... (olha aí a minha estratégia surgindo novamente)

- Kátia, com ká... - disse ela sorrindo. Que sorriso maravilhoso, velho.

- Meu nome Bill, Chernobill. - apresentei-me. O sorriso dela aumentou mais ainda.

- Tipo aquele detetive? - disse após uma risadinha.

- James Bond? Ele era espião. - respondi, bancando o intelectual.

- Chernobill não é o nome de uma cidade? - perguntou-me com o olhar intrigado. Aí eu fiz toda aquela minha performance de explicação da origem do nome.

- Chernobill é uma cidade na Ucrânia, que teve um acidente nuclear, lembra?

- Ah! Sim... mas não era na Rússia?

- Ali bem ali pertinho. - disse atendendo outro passageiro.

- Chernobill... Você é engraçado...

- É... minha mãe sempre disse que eu sou uma gracinha... - disparei novamente.

- Poxa, eu nem sei o significado do meu nome.

- Ah, mas eu faço questão de pesquisar para te falar! - disse com o meu olhar sedutor – porque eu tenho um olhar sedutor. Fazer o quê? Eu tenho, tem gente que não tem, a vida é assim...

- Ih, meu ponto chegou, tchau! - disse ela saindo apressadamente, deixando o beijo característico. “Lindo, Kátia, continue assim...” pensei.

Fiquei dias trabalhando ali. Ela gostava de fazer charminho. Mas a sorte acompanha os audazes, e eu sou audaz. No fatídico dia – era uma sexta-feira – ela subiu no ônibus – estava quente – com uma saia jeans bem pequena e, essa era a minha deixa.

- Bom dia, Bill!

- Bom dia... - cumprimentei-a, de forma lenta, só para deixar bem claro que eu havia percebido suas pernas nuas - e quem não iria perceber? - Vem cá, teu namorado te deixa sair assim? - perguntei.

- Eu não tenho namorado. - respondeu ela de pronto. Uh! Era só que eu queria saber! - E mesmo que tivesse, homem ciumento nenhum vai mandar em mim.

- Poxa, mas aí não é ciúme, é cuidado. - argumentei sorrindo.

- Ah! Cuidado pode! - respondeu ela sorrindo também. Que delícia.

- Você viu? Tem um filme nacional bacana passando no cinema. Estava a fim de ver...

- Ué, e porque não vai? - uma pergunta retórica, não é mesmo?

- Poxa, sozinho é bem chato, não é? - disse com cara de cachorro que caiu da mudança. Ela me olhou com os olhos semicerrados – ela sabia que eu estava a chamando para sair – e disparou.

- Eu vou com você – assim, seco, na lata.

- Largo às seis, a sessão começa às sete e quarenta e cinco. - Quanta mentira. Ouvi por alto sobre o filme, na rádio, eu lá sabia os horários das sessões?

- A que horas você me pega? - “Eu te pego a qualquer hora, gatinha!”

- Não sei, onde eu te pego? - “Em qualquer lugar!”

- Pode ser em frente à prefeitura.

- Então às seis e quarenta está bom, não está?

- Está ótimo... - chegou meu ponto! Até mais tarde, beijo! - despediu-se ela novamente com um beijo, mas este havia sido diferente, parecia mergulhado em luxúria, foi erótico, exatamente do jeito que eu queria.

Fiquei pensando o dia todo naquele beijo. Larguei às seis, desci no Paissandú e fui caminhando apressado pela Rua Leuenroth, improvisando um “Stayin alive” do Bee Gees, com aquela voz fininha, quando passei por uma lanchonete que fica na esquina com a Alberto Braune. Meu olhar distraído pousou sobre um cartaz que dizia em letras garrafais “BOMBA JAMAICANA - Bebida ultra energética”. Eu parei na hora. Passou um filme na minha cabeça, eu não podia deixar aquela mulher na mão, minha performance tinha de ser excelente, eu tinha que dar uma canseira nela. Ela não podia esquecer essa noite...

Entrei na lanchonete e aproximei-me  do cartaz. Xarope de guaraná, castanha de caju, amendoim, catuaba, guaraná em pó, geleia real, kiwi, pitanga, cupuaçu, marapuama, ovo de codorna e gengibre. Caramba, os ingredientes tinham tudo para dar um vigor extremo a qualquer um.

- Amigo, me dá uma Bomba Jamaicana dessa aí. - disse para o atendente da lanchonete.

- Hei, cabeça! - gritou o atendente para outro funcionário. - Uma Bomba Jamaicana para o conterrâneo aqui! - concluiu ele com o sotaque mais nordestino do que o da minha mãe.

A bebida chegou bem gelada em um copo de vidro de 500 mililitros. O ar condensava em sua superfície, e lentamente algumas gotas se formavam, escorrendo e ganhando o balcão, também de vidro. Segurei o copo pensando naquele beijo safado e virei de uma vez só, formando em meus lábios aquele bigode com a espuma da bebida, feito um menino. A cor era avermelhada e lembrava uma vitamina de morango, contudo, o sabor era de guaraná, um pouco azedo talvez. Senti uma leve ardência na gengiva também.

- Me dá outra, por favor. - pedi ao bater o copo no vidro, aproveitando a outra mão para limpar o bigode. Era bom garantir, não é mesmo?

- Cabeça! Manda outra Bomba Jamaicana pro conterrâneo! - disse ele jocosamente. E qual é a graça?, pensei.

A outra bomba chegou mais rápido ainda, devia ser o resto no liquidificador. Mandei para dentro mais rápido ainda. Paguei e segui para casa, uma quitinete na Mac Niven. Tomei um banho rápido, com sabonete neutro e xampu anticaspa. Lembrava daquelas pernas com os pelos dourados, aquele beijo lascivo, mas não, eu precisava ser forte, eu tinha de guardar todas as minhas energias para a Kátia.

Saí do banho e tomei outro, de alfazema. Coloquei uma camisa de gola, por fora da calça, um All Star e saí de casa. Meu carro ficava estacionado em frente ao prédio da quitinete, uma Brasília setenta e seis, branca. Semana passada ela deu um probleminha na bomba de combustível, e por falar em bomba, essa tal de Bomba Jamaicana dá uns gases terríveis. Abri os vidros para o cheiro sair mais rápido e fui para o lugar marcado. Lá estava ela, um vestido curto e apertadíssimo – muito gostosa, muito gostosa mesmo – os cabelos ainda estavam molhados, e esse também era o efeito que o batom tinha dado aos seus lábios carnudos. Hoje ela estava mais cheirosa ainda, um perfume doce de morango silvestre – que maravilha, eu ficava cada vez mais excitado. O esmalte de suas unhas – sacanagem  eu nem reparei nas unhas.

- Que Brasília inteiraça! - disse com aquele sorriso. Parecia até empolgada com a Jacutinga mesmo – esse era o apelido dela.

- É... o mecânico tem bom gosto... - disse tentando disfarçar, ao sair do carro.

- Mecânico?

- É... tive que levar meu carro para a oficina, e para não ficar a pé, ele deixou esse carro comigo. - Baita mentiroso! - Vamos?

- Vamos! - disse ela, eu abri sua porta e ela entrou no carro. Tudo somava ponto nesses momentos iniciais.

Pegamos umas ruas transversais à Alberto Braune até ganhar a José Eugênio Müller , essa rua passava por trás do shopping e era um pouco deserta.

- Você está muito cheirosa... - comentei de forma maliciosa. De vez em quando eu pousava o olhar naquelas pernas.

- Você também está... - retribuiu ela, também de forma maliciosa. Na primeira oportunidade eu encostei o carro e parti para cima dela.

- O que é isso?! - disse ela, com um risinho, tentando bancar a puritana, sei lá, mas correspondendo aos meus beijos.

- Eu não resisto a você! Desde o primeiro dia em que eu te vi eu te desejo, eu te quero! - disse entre beijos naquela boca gostosa.

- Seu safado, eu sei disso! Agora vamos sair daqui, a polícia vai prender a gente! - recomendou ela enquanto ainda me beijava.

Me recompus e arranquei para a Friburgo-Teresópolis. Em pouquíssimo tempo estávamos na portaria do motel. Estiquei o braço e pedi uma suíte, o funcionário me entregou uma chave e eu fiquei paralisado.

- O que foi? - perguntou ela, abismada.

- A suíte. - respondi monocordicamente.

- O que tem a suíte?

- Número 13.

- Você é supersticioso? - perguntou ela com um sorrisinho. Resolvi superar isso rapidamente.

- Não, não, eu estava brincando contigo... - respondi seriamente. O pé de coelho pendurado no retrovisor me desmentia.

Entrei cantando pneu e parei o carro na garagem. Parti para cima dela novamente, que beijo gostoso aquela morena tinha, os seios medianos, faziam um desenho sublime no vestido. Ela desvencilhou-se de mim e saiu do carro. A calcinha não marcava o vestido. Uh! Ela não usava calcinha.

Fui atrás dela, mas ela se esquivava, rindo. Entramos no quarto e ela foi ao banheiro. O vestido foi atirado de lá para o quarto e o chuveiro foi aberto. E eu não podia ter ido tomar banho com ela? Mas eu fiquei ali. Tirei minha roupa, liguei a TV e comecei a aquecer as turbinas. Deus dos céus, ela apareceu ali enrolada na toalha, maravilhosa, e quando eu cair matando, senti uma pontada forte na barriga, larguei meu garoto e me encolhi, segurando o abdômen.

- O que foi? - perguntou ela desfazendo o sorriso.

- A barriga, está doendo... - respondi cerrando os olhos e caminhando com dificuldade para o banheiro.

- Quer que eu peça ajuda? - disse  ela se aproximando.

- Não, está tudo bem, eu já estou voltando... - respondi com a voz embargada, e ela foi para a cama, aquecendo as turbinas com o filme.

Desabei sobre a privada e fiquei uns cinco minutos só gemendo. Qualquer um que passasse pelo basculhante acreditaria que eu estivesse tendo um belo de um orgasmo. Um som borbulhante correu minha barriga de fora a fora e ganhou a atmosfera. Que cheiro horrível! Os gases vieram em carreata, um mais sonoro que o outro; o formato do vaso criava uma acústica incrível que potencializava o traque.

- Credo, que cheiro é esse?! - perguntou a Kátia do quarto. Os motéis deviam se preocupar com isso, os banheiros tinha que separados dos quartos. É claro, deveria haver um com acesso quarto, com banheira, aquele fetiche todo. Mas um deveria ficar separado, com sanitário, para evitar esse tipo de constrangimento, poxa.

- Está tudo bem, fica tranquila. - respondi tristemente. Não estava tudo bem.

Daí a pouco desceu tudo, tudo mesmo. Eu pensei que ia morrer ali: minha barriga doía como eu nunca senti antes, os gases, horríveis, vinham sonoramente altos, devido à acústica da privada e, Deus, como eram horríveis, parecia algo podre – nem eu estava me aguentando.

Depois de uns quarenta minutos – a Kátia já tinha se resolvido sozinha – eu parei de cagar, parei de peidar, mas a barriga continuava doendo. Tomei um banho e tentei me lembrar do corpo da Kátia, ela era maravilhosa, mas meu garoto não queria nem saber. Só dormia.

Fui para o quarto, totalmente sem graça, ela estava deitada maravilhosamente sobre a cama, com aquela cara de safada.

- Como você está Bill? - perguntou-me, parecia realmente preocupada.

- Estou bem! - disse, tentando parecer forte. Estava ruim até para ficar em pé. Deitei por trás dela, fiquei beijando seu pescoço e suas costas. Ela se virou para mim, beijou-me, mordeu-me (ela era uma delícia e sabia muito bem o que estava fazendo), mas não teve jeito, meu garoto não quis nada com a hora do Brasil.

- Não fica assim não, gatinho, nós vamos ter muitas outras oportunidades... - disse ela me abraçando. Puta que pariu! Tinha que ter sido hoje! Que vergonha, eu bancando o maior garanhão, e no final saí como o maior cagão.

Dormimos ali – pelo menos isso foi gostoso – eu levei ela até sua casa e fui para a minha. Eu queria que a noite tivesse sido inesquecível para ela e acho que consegui. Se querem um conselho, da Jamaica, somente o Bob Marley, por favor.  A bomba só atrapalhou, e como dizem, muito ajuda quem não atrapalha.

George dos Santos Pacheco

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Artes de plástico


Os ingleses com suas  revoluções ensinaram ao mundo a produzir em série; centenas, milhares por dia. Vieram os chineses e baratearam o custo da produção; escravos, e mais chumbo, veneno, milhões por hora. Estava pouco. Estavam em todos os cantos, segmentos, mas precisam de mais PIB e mais 'dolares'. Foi um amigo em distante lugar que me disse "dolares!" assim mesmo sem o agudo. Ninguém sabe, mas Ele é agudíssimo de alma e de  língua: Vê! Tomaram o lugar do artesão, a barraquinha de artesanato está cheia de produtos idênticos, quinquilharias de chumbo, produzem Monet's e Gogh's em impressoras violentas, parece que a arte está restrita aos engenheiros (breves artistas de plástico), artes plástico. Nas lojas de discos os cantores e compositores berram, urram em faixas, o que eles querem é dolares, e para ninguém ver o estrago ou sentir falta de arte as antenas se ligam arrebanhando o gado sobre confortáveis sofás. Ora, Huxley previu a produção de homens em série, Alberto Moravia disse "homem em série é o contrário do artista", eles sacaram tudo, o homem já é produzido em série, pelo menos em metafísica, e a produção humana em série mata a arte.

Por Irineu Magalhães




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A filosofia do erro


Não é segredo para ninguém que o trânsito de nossas cidades a cada dia se torna um caos imperscrutável. E a culpa, meus senhores... bem, de quem é a culpa?

Certa feita estava eu no centro da cidade com a minha família, atravessando a avenida principal, em que diversos supermercados, lojas e bancos estão instalados – e por isso mesmo é uma via muito movimentada – em que transitam ônibus, caminhões e carros de passeio. Nessa rua – ah, se essa rua, se essa rua fosse minha... – os carros param em vagas de farmácia (mesmo que o destino não seja ela), ou em fila dupla, o que é pior ainda. E nesse fatídico dia, minha esposa precisava ir a uma determinada loja, e eu não tinha lugar algum para estacionar o carro. Decidi parar também na famigerada fila dupla, “rapidinho”, perto da vaga (já ocupada) destinada às drogarias.

– Mas e se vier algum guarda? – perguntou minha esposa, em tom preocupado.

– Qualquer coisa eu digo que você foi à farmácia... – respondi, ainda com o carro em movimento, me aproximando do local de parada. Ela ficou em silêncio, fitando-me com olhar censurador.

Parei o carro, mas arremeti, ao encarar seus olhos. Caramba, não faz muito tempo eu praguejava contra quem para o carro em fila dupla, contra o pedestre que atravessa fora da faixa... o que me faz pensar que eles estão errados, e eu não? Simplesmente porque, naquele momento, aquele erro me convinha. Ou então está escrito no Código Brasileiro de Trânsito “proibido parar em fila dupla, exceto se algum ocupante for rapidinho em uma loja ou farmácia”? Não, não está. Assim, eu estava errado – e sabia que estava – da mesma forma que os outros, independente de minhas justificativas.

E não é apenas no trânsito que isso acontece, não, mas no comércio; na justiça; na segurança; na saúde; na educação, e em várias situações do nosso cotidiano. O erro consciente.

Por que se vende o voto? Porque convém.

Porque políticos levam dinheiro público em malas, cuecas e meias? Porque lhes convém.

Por que não se devolve o troco errado, por que se roubam frangos, por que se estaciona em fila dupla, porque se mente, por que se adultera? Porque convém.

O erro consciente é o que alimenta a injustiça, a desigualdade e a fome em nossa sociedade. Porque se o erro convém a alguma pessoa, com certeza ele prejudica a outra. Se buscássemos fazer as coisas certas, independente de nossas necessidades pessoais ou familiares, o mundo seria completamente diferente. Preocupamo-nos em criticar o outro, mas não enxergamos a trave em nossos próprios olhos; censuramos a roupa suja no varal do vizinho, sem perceber que é nossa própria vidraça que está imunda. E daí, erramos, transgredimos... e nessa terra de gigantes, todo mundo é uma ilha, cada um olhando para seu próprio umbigo. Ignoramos nossos próprios erros ou o dos outros porque nos interessa de alguma forma. Hipócritas!

Exemplo comum dessa hipocrisia que se tornou epidemia na raça humana é o apelo indiscriminado ao consumo de bebida alcoólica – que é uma droga lícita. Atualmente, fala-se muito em “lei seca” e este ano, inclusive, o governo federal gastou R$ 5 milhões com a produção de cinco vídeos institucionais e com a veiculação de peças publicitárias, incluindo outdoors e painéis, com a campanha “Bebeu, perdeu”, para conscientizar quem tem menos de 18 anos sobre os malefícios do álcool. Quanta hipocrisia. O que mais se vê, em qualquer cidade de nossa pátria amada e idolatrada (salve, salve!) são anúncios de festas em que o destaque não é o artista que vai se apresentar, mas a liberação de bebidas alcoólicas gratuitamente a noite toda, ou até determinado horário, ou somente para as mulheres, com o fito de atrair público. Isso não é um estímulo? É no mínimo paradoxal, lançar campanhas contra o consumo de álcool, e cruzar os braços diante disso.

Será que ninguém vê o caos em que vivemos? Onde está o pessoal da campanha? Cadê o governo? Não estão vendo isso? Oh, é claro que estão vendo. Entretanto, mais uma vez o erro convém. A alguém: sujeito oculto ou indeterminado.

Mas e o trânsito, Pacheco, de quem é a culpa? E o comércio, a justiça, a segurança, a saúde, e a educação, de quem é a culpa? Bem, a culpa, meus senhores... a culpa...

George dos Santos Pacheco
pacheconetuno@oi.com.br

* Publicado na Revista Êxito Rio, em 13/03/2014.

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Pedro Páramo - Juan Rulfo

"Pedro Páramo" (1955), uma obra prima da literatura mundial, do escritor e fotógrafo mexicano Juan Rulfo (1917-1986), único  livro do escritor. Em uma narrativa que mistura romance, ficção e poesia, "Pedro Páramo" consegue conquistar o leitor nas primeiras páginas. É um tratado do sentimento humano, dos desejos e pavores mais ocultos: vingança, amor, ódio e servidão. 


(...) -Não sei, João Preciado. Há tantos anos que não levantava o rosto, que me esqueci do céu. E ainda que o houvesse feito, que haveria ganho? O céu está tão alto, e meus olhos tão sem vista, que vivia contente em saber onde ficava a terra. Além disso, perdi todo meu interesse desde que o padre Rentería me assegurou que jamais conheceria a glória. Que nem sequer de longe a veria… Foi coisa de meus pecados; mas ele não me devia tê-lo dito. Já por si a vida se leva com trabalhos. A única coisa que faz a a uma pessoa mover os pés é a esperança de que ao morrer a levem de um lugar a outro; mas quando lhe fecham uma porta e a que fica aberta é só a do inferno, mais vale não haver nascido… O céu para mim, João Preciado, está aqui onde estou agora.

Por Irineu Magalhães


Por Irineu Magalhães

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Obra poética completa de Fernando Pessoa para download

Fernando Pessoa poeta português, é considerado o maior poeta de língua portuguesa de todos os tempos, e um dos maiores da literatura universal. Fernando Pessoa foi um gênio da poesia, e um perfeito criador de personagens aos quais usava como heterônimos que assinaram seus poemas mais conhecidos:  Alberto Caeiro, Bernardo Soares, Álvaro de Campos, Pessoa, Ricardo Reis. 

Bem, criar personagens parece até uma tarefa fácil, mas dar a eles 'vida', completude, estilos próprios, obviamente diferentes do criador, é uma tarefa árdua cabida a poucos, propriamente aos mestres do seu naipe. Os personagens de Fernando Pessoa, não era os que habitam nos livros de ficção e romances, eram autores e poetas fictícios, personagens da vida real, que falava com seus leitores através do poemas e de correspondências.

Por Irineu Magalhães



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Explosão poética em Belém no dia da Poesia - Octavio Pessoa


14 de Março é o Dia Nacional da Poesia, em razão do aniversário de nascimento do poeta baiano Antonio Frederico Castro Alves. Este ano cai numa sexta-feira e, em Belém, os amantes da Poesia terão opções de  programação poética para prestigiarem.

          A partir das 19 horas, no Sesc Boulevard (em frente à Estação das Docas),  acontece a II Festa Paraense da Poesia. Na abertura, dentro do Projeto Rota Intercâmbio, apresentação da Poeta Rita Melém, com participação especial do grupo Arsenal de Rima. 



           Na sequência, o grupo VersiVox apresenta “O Samba Veio no Navio Negreiro”, baseado na obra de Castro Alves, o poeta dos escravos. Com Carlos Correia Santos, Ane Barbosa, Karina Lima, Renato Rosas, Alexandre da Silva, uma produção de Hudson Andrade.



          Na Praça do Artista, do CENTUR (Av. Gentil Bittencourt com a Rui Barbosa), também a partir das 7 da noite, ocorrerá o lançamento da Antologia do Instituto Cultural do Extremo Norte/ICEN, denominada  Eco Poético.  



          A “Eco Poético”  é uma coletânea com significativa parcela da produção poética paraense e amazônica e texto de Apresentação deste mais cronista do que poeta. Na programação do lançamento, a presença de poetas do Extremo Norte, dos cantores/compositores Alcyr Guimarães e Tommil Paixão, do grupo Ayvu Rapyta Contadores de História e dos dançarinos Nonato e Jéssica. 

          A efervescência cultural e particularmente da Poesia em Belém do Pará nos últimos tempos,  é indiscutível. A ação de poetas e grupos independentes, somada ao trabalho de escritores, agitadores e produtores culturais, fazem de Belém uma verdadeira  “Capital Amazônica da Poesia”.

          Aliás, acho que não é má ideia lutarmos pelo reconhecimento de Belém como “Capital Amazônica da Poesia”. Assim como  pessoas e grupos do Rio se movem pro Rio de Janeiro ser reconhecido como “Capital Nacional da Poesia”.

Penso que devemos valorizar também o 21 de Março, Dia Mundial da Poesia, instituído pela XXX Conferência Geral da UNESCO, Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, para promover a leitura, a escrita, a publicação e o ensino da Poesia pelo mundo.


          Ficam as sugestões.

Por Octavio Pessoa

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The Poema - L. Rafael Nolli


The Poema - L. Rafael Nolli 

Era de cachos báquicos teus cabelos – entre cachos teus olhos: duas esféricas uvas em meio a tantas outras uvas: frágil película roxa, quase água – futuro vinho tinto. 

Era de pétalas e caule teu tronco de petúnia e pitonisa – duas possíveis auroras rosa-pálidas brotando da profundeza de teu corpo de tempestade e nuvem e calma – feérica maçã dormindo no regato de tuas coxas. 

Era de sonho e vigília tua presença – solilóquio com os corvos de Odim, desfraldar das velas da consciência: viagem, vôo.

Era noturna tua voz, clara tuas palavras: diálogo travado entre abelhas – o mel compensando o ferrão.



Rafael Nolli 

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Antologia poética de Hilda Hilst

Antologia poética de Hilda Hilst, 456 páginas  de pura poesia.


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A teia

Contemplei a fiandeira 
Imaginei-a cosendo versos 
Tramando minha teia
Alma roída de coisas inacabadas
Percorri com os olhos as chamas dos espelhos 
Observei atento a simetria das estrelas 
O mato crescendo esfacelando os girassóis
Que não giravam mais
Nas paredes brancas
Aranhas famintas mirando suas presas 
Iluminadas por castiçais.

(Irineu Magalhães)




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Lamentos

Dormem os pardais e deuses nos ninhos das estrelas
Os leviatãs nas profundezas 
Dormem os espelhos desgastados pelo uso 
Os barcos sem rumo
Dormem os meus precitos carrascos
As janelas azuladas de lua 
Dormem os ossos ruídos 
Escurecidos pelas negruras das tumbas 
Dorme o medo aninhando nas veias
Os kamikazes que não viram Deus
Dormem minhas correntes enferrujadas de tormento
Sim, dormem, dormem
Só não dormem os malditos relógios 
Empregados das pás do tempo.

(Irineu Magalhães)


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Eu, zumbi?

 

Certa vez li uma reportagem em que o autor afirmava que existem apenas duas ou três histórias diferentes e dessa forma, depende unicamente da criatividade do escritor, tornar um texto original. Basicamente, histórias são narrativas de personagens em conflito, há vilões, mocinhas e mocinhos e um imbróglio para resolver. O enredo muda, os personagens mudam de gênero, mas a síntese da história continua a mesma. Por isso quando alguém disser “isso nunca se fez”, é bem possível que já tenham feito, mas de uma forma diferente. Bem diferente, às vezes. 

A cada dia chegam às prateleiras livros, filmes e HQs em que os autores lutam para manter a originalidade de seu trabalho, criando e recriando mitos e heróis. O vampiro, por exemplo, foi criado e recriado diversas vezes. Na literatura clássica, com Bram Stoker, os vampiros têm características bem diferentes do que na literatura contemporânea: podem assumir a forma animal; têm aversão aos símbolos cristãos; não têm reflexo; possuem grandes caninos; dormem em caixões; “morrem” se expostos à luz do sol; e apenas podem ser exterminados se forem decapitados ou se uma estaca de madeira atravessar seu coração. 

Em meio a esse caldeirão de estilos, criatividade e busca por originalidade, surgem ideias espetaculares e outras nem tanto. Os vampiros de Stephenie Meyer, comparados aos de Stoker, não mudam de forma; são indiferentes aos símbolos cristãos; não têm caninos protuberantes; possuem reflexo diante de um espelho; e não dormem em caixões – e como se não bastasse, sua pele brilha se expostos à luz solar. Ou seja, quase não tem relação com o vampiro original.

Já Blade, criado por Marv Wolfman e Gene Colan para a Marvel, é um híbrido de humano com vampiro, por ter sido contaminado ainda no útero de sua mãe, e preservando características humanas e vampíricas e isso, meus amigos, beira a genialidade. Os inimigos a quem Blade combate, mantém as particularidades do vampiro clássico, assim como ele, que luta contra sua sede de sangue. O bonequinho aqui aplaude de pé.

Na linha da adaptação dos quadrinhos, outras versões geniais surgiram nos últimos anos, como os filmes Constantine, Thor e a série televisiva “The Walking Dead”.  Levando isso em conta, quando recebi a notícia sobre outras duas adaptações, fiquei curioso, e resolvi pesquisar, mas descobri que tanta criatividade está assumindo uma proporção nunca antes vista na história da humanidade. O anúncio na rádio falava sobre a série “Eu, zumbi”, baseada nos quadrinhos da DC Comics, que versa sobre uma estudante de medicina que se torna zumbi e trabalha no escritório do legista da cidade, tendo acesso aos cérebros, que ela deve comer para manter sua humanidade. A protagonista ao comer os cérebros, herda as memórias do cadáver e com a ajuda de seu chefe médico legista e um detetive da polícia, resolve casos de homicídio. Ora, vocês hão de convir que um zumbi com consciência, estudante e, ainda por cima, detetive é demais para mim.

Seguindo o mesmo padrão da zumbi detetive, há também o lançamento recente de “Frankenstein - Entre anjos e demônios”, uma recriação do famoso personagem de Mary Shelley, também adaptado de uma HQ. Nessa aventura, a criatura monstruosa se torna um marombado cheio de cicatrizes estilosas e penteado bacana. E uma cientista ainda se apaixona pelo monstrengo Adam, a criação do Dr. Victor!

Aqui, meus amigos, o bonequinho mete o pé.

Personagens e histórias são recriados de tal forma que chegam a se tornar outros completamente diferentes. No caso dos zumbis, especificamente, a criatura cujo estereótipo define-se por um morto reanimado, privado de consciência, irracional e de hábitos noturnos se foi transformada em outra, capaz inclusive de amar, como é o caso do filme “Meu namorado é um zumbi” (adaptação do livro "Warm Bodies"). Contudo, há também os bons e-xemplos das releituras (ou mash ups), como o filme “João e Maria – Caçadores de Bruxas” e os brasileiros “A escrava Isaura e o vampiro”, “Dom Casmurro e o Disco Voador”, e “O Alienista – Caçador de Mutantes”, em que elementos da literatura fantástica foram inseridos nos clássicos nacionais. Há ainda, as produções da Disney, “Frozen – uma aventura congelante”, baseada no conto “A Rainha da Neve”, de Hans Christian Andersen, e “Malévola”, releitura do clássico “A Bela Adormecida”, de Charles Perrault, que tem como mote a origem da rainha má, e são muito bem sucedidos a meu ver, por abordarem elementos desprezados na história original, o que sempre é possível.

Por isso, meu amigo, quando você pensar que não se poderá criar mais nada, que se esgotaram as chances de surgir algo diferente, lembre-se que é possível sim, pois o que não falta é criatividade ao ser humano. E talvez não existam apenas duas ou três histórias, mas um lote delas.  O problema é quando alguém resolve ao invés de recriar, criar novamente, o que é uma coisa bastante distinta. É se julgar tão genial quanto o criador.

George dos Santos Pacheco

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A ala dos escritores


“Hoje cedo tirei uma vírgula. À tarde, coloquei-a de volta.”

(Oscar Wilde)



Em 1994, o psiquiatra Felix Post publicou um artigo no British Journal of Psychiatrychamado “Creativity and psychopathology: A study of 291 world-famous men” [Criatividade e psicopatologia: Um estudo de 291 personalidades]. Analisando a biografia de grandes cientistas, filósofos, estadistas, pintores e músicos, buscou determinar a prevalência de distúrbios mentais nesses indivíduos, que supostamente aliariam genialidade e loucura. Ao contrário do esperado, eles até que eram normais.

Julio Cortázar

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Gabriel Garcia Márquez



Jornalista, escritor e ativista político, aos 86 anos, Garcia Márquez é um dos mais nobres e influentes nomes da literatura, do jornalismo e da América Latina. Ainda jornalista, criou laços com personalidades como Fidel Castro - por isso foi posto em alerta vermelho pela CIA. Publicou vários ensaios e crônicas políticas, além de livros como "Relatos de um Náufrago", 1960, e "Crônica de uma Morte Anunciada", de 1981, que são referências no Jornalismo Literário.
gabriel_garcia_marquez.jpg

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Não tenho pressa


Não tenho pressa. Pressa de quê? 
Não têm pressa o sol e a lua: estão certos. 
Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas, 
Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra.
Não; não sei ter pressa. 

















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Nós não


Não fizemos na luz da lua; não fizemos no escuro. Não fizemos na grama de verão recém-cortada ou nos montes de folhas de outono ou na neve em que o luar deixava cair as nossas sombras. Não fizemos no seu quarto na cama de dossel em que você dormia, a cama em que você dormia quando criança, ou no assento de trás do Rambler enferrujado do meu pai, que cheirava à Kielbasa e às carpas defumadas que ele entregava nos finais de semana para o açougue do meu tio Vicent. Não fizemos no Buick Eigth da sua mãe, em que um rosário se enrolava no espelho retrovisor como uma cobra preta de contas com presas de prata em forma de cruz.

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Cora Coralina

O que você faria se tivesse 76 anos de idade? Pensou? Com certeza Cora Coralina, uma das mais proeminentes escritoras brasileiras fugiu a regra da maioria da população idosa, que com essa idade só pensa em descansar, natural e mais que justo. Só que esta brasileira foi além. Agosto é o mês do 123º aniversário de nascimento de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas ou Cora Coralina como é conhecida pelo público. Com esta idade lançou o seu primeiro livro “Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais”.


Pessoa simples, doméstica, doceira por profissão, não acompanhava os movimentos literários da época e seus modismos, coisa que influenciou a sua carreira literária grandemente. A riqueza poética encontrada nas suas obras mostra um Brasil provinciano, matuto, do dia-a-dia do brasileiro típico do interior em especial da sua cidade natal Goiás, também conhecida como Goiás Velho ou Cidade de Goiás interior do Estado de Goiás.

Apesar da tardia publicação de seu primeiro livro, ela começou degustar o sabor das letras bem cedo. Com idade de 14 anos, já escrevia para jornais e em periódicos, ainda com pouca escolaridade levou a sério o talento que despontava timidamente.


Abaixo um resumo do texto sobre a vida e obra de Cora Coralina, produzido por Clovis Carvalho Britto (UnB). Conteúdo completo disponível para download aqui:


‘Sim, foi naquele meio, afastado de tudo o que me prendia, sozinha,
longe da vida de meus filhos (porque uma mãe quando mora com os
filhos vive a vida de todo o mundo, menos a dela). Quando eu senti
uma necessidade imprecisa, obscura de me por de longe, eu tinha
qualquer coisa que me forçava a isso. Em Goiás, vamos dizer assim,
abriram-se as portas do pensamento e escrevi o primeiro livro
publicado” (Cora Coralina, In: ARAÚJO, 1977).
(...)
“Meus amigos me esqueceram. As revistas que apareceram em Goiânia,
jamais me pediram uma crônica sequer. Eu poderia ter colaborado e
muito. Havia muita coisa a ser escrita dentro da história de Goiás.
Preferiram encomendar crônicas de fora, Eneida e outros nomes, que
falavam da Guanabara. Eu fui ficando de lado, angustiada, aborrecida,
frustrada. Por isso dediquei-me de corpo inteiro a fabricação de doces,
sem deixar de escrever meus contos e poemas. É uma espécie de
revolta que tenho comigo. Escrevi bastante naquela época, mas nunca
bati na porta de ninguém para a publicação de meus trabalhos. (...) Ai
está o motivo de meu apego aos doces, é uma réplica a esse alheamento
que os jornais fizeram da minha pessoa literária (In: JORGE, 1968).

(...)

“O grande livro de amor de quem como eu só teve uma escola primária:
o dicionário. Dicionário é um livro de amor, o meu livro de amor. Eu
fazia doce, mas meu dicionário estava na mesa da cozinha: cheio de
melado, de dedada de manteiga, de melado, de gema de ovo. E me
valeu. Hoje, jovem não abre dicionário, jovem não abre dicionário (In:
Cora Coralina, aos 92 anos, 1981)”.


Lindo demais
Coração é terra que ninguém vê
Quis ser um dia, jardineira
de um coração.
Sachei, mondei - nada colhi.
Nasceram espinhos
e nos espinhos me feri.
Quis ser um dia, jardineira
de um coração.
Cavei, plantei.
Na terra ingrata
nada criei.
Semeador da Parábola...
Lancei a boa semente
a gestos largos...
Aves do céu levaram.
Espinhos do chão cobriram.
O resto se perdeu
na terra dura
da ingratidão
Coração é terra que ninguém vê
- diz o ditado.
Plantei, reguei, nada deu, não.
Terra de lagedo, de pedregulho,
- teu coração. Bati na porta de um coração.
Bati. Bati. Nada escutei.
Casa vazia. Porta fechada,
foi que encontrei...
(Cora Coralina)



Conto: Minga, zóio de prata - Cora Coralina

Eram elas as senhoras-donas, ali no beco do Calabrote. Quem transitasse pelo beco, tivesse cuidado... Passasse quieto e bonzinho. Não se engraçasse nem fizesse cara de pouco. E quem fosse de entrar, empurrasse a porta de dentro, com fala curta e dinheiro pronto. Escândalo de mulher-dama não dava; nunca deu; também, nunca foram levadas, como tantas, para capinar na frente da cadeia. Família de respeito podia passar toda hora, não via nada. Macho, porém, que não se fizesse de besta... Eram donas e autoridade no beco. O beco era delas. E tinham prestígio.

Duas irmãs, morando juntas na mesma casa, de porta e janela aberta aos homens que quisessem entrar; isso a Zóio de Prata. Já a Dondoca, tinha seu homem e era pontual a ele só.Também eram conhecidas por As Cômodas, na roda da macheza. Minga era durona. Não tretasse com ela, saindo sem deixar a taxa... Um que tentou a rasteira, ela alcançou já fora do beco e deixou sem as calças no meio da rua.

Tinha mesmo um bugalho branco, saltado, e era vesga do outro. Espinhenta, de cabelo sarará, mulatona encorpada, de bacia estreita, peito masculino, de mamilos duros, musculosa; servindo bem no ofício, de fala curta, braço forte, mãos grandes.

Um dia, voltava ela do mercado com um frango na mão, deu de cara com a irmã chorando, de cara amassada e beiço partido. Tinha entrado na peia do amigo — o Izé da Bina — à-toa, ruindade de pingado ordinário. Dei'stá — disse ela — sai fora e deixa por minha conta. Óia, vai depená esse frango pra nóis na casa da vizinha e só entra quando eu chamá...

Dondoca foi fazer o mandado. Estava ela na casa da vizinha depenando o frango, quando chegou o Izé da Bina, todo mandante, de paletó preto, gravata borboleta, calça engomada.

Entrou no quarto e gritou autoritário pela Dondoca. Quem apareceu foi a Zóio de Prata, de manga arregaçada e porrete na mão. Atirou-se no mulato com vontade e foi porretada de direita e canhota. Bateu com sustância, sovou com fôlego, quebrou as carnes, moeu bem moído. No fim, jogou fora o cacete e entrou de corpo. Numa boa sobarbada deu com o crioulo no chão. Sentou em cima e esmurrou à vontade. Quebrou as ventas, partiu dois dentes, entrou no olho... xingou nomes... desses de ouvindo dizer o Antônio Meiaquarta, tipo de rua, rei dos bocas-sujas da cidade: eu sei dois contos e quinhentos de nomes indecentes... Zóio de Prata sabe cinco contos... apanhei dela, bateu em mim... tou descarado, apanhei dela... muié praceada... êta muié sagais.

Depois de ver o cabra mole, estirado, fungando, Zóio de Prata assungou a saia, abriu as pernas e mijou na cara de Izé da Bina. Estava vingada a Dondoca e consolidada a fama das Cômodas.



Conto: Conclusões de Aninha - Cora Coralina


“Estavam ali parados. Marido e mulher.
Esperavam o carro. E foi que veio aquela da roça
tímida, humilde, sofrida.
Contou que o fogo, lá longe, tinha queimado seu rancho,
e tudo que tinha dentro.
Estava ali no comércio pedindo um auxílio para levantar
novo rancho e comprar suas pobrezinhas.
O homem ouviu. Abriu a carteira tirou uma cédula,
entregou sem palavra.
A mulher ouviu. Perguntou, indagou, especulou, aconselhou,
se comoveu e disse que Nossa Senhora havia de ajudar
E não abriu a bolsa.
Qual dos dois ajudou mais?
Donde se infere que o homem ajuda sem participar
e a mulher participa sem ajudar.
Da mesma forma aquela sentença:
"A quem te pedir um peixe, dá uma vara de pescar."
Pensando bem, não só a vara de pescar, também a linhada,
o anzol, a chumbada, a isca, apontar um poço piscoso
e ensinar a paciência do pescador.
Você faria isso, Leitor?
Antes que tudo isso se fizesse
o desvalido não morreria de fome?
Conclusão:
Na prática, a teoria é outra”.




Por: Francine Torquato

Fonte de pesquisas:
1) UM TETO TODO SEU: O ITINERÁRIO POÉTICO-INTELECTUAL DE CORA CORALINA (Clovis Carvalho Britto (UnB))
2) Site: releituras.com
Fonte das Imagens: Clique com o botão direito do mouse na imagem para ver a fonte no rodapé da página.

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Sombras


As sombras que cobrem

Cadavéricas luzes turfas

Invadem a cidade

jardim,  flores o mundo.




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Milhares de LIVROS totalmente gratuitos

Agora você não tem mais desculpa para não ler, lembro-me muito bem que reclamava dos altos preços dos livros, e que o governo deveria isentar o objeto de tais cargas tributárias. Bom, os impostos continuam em alta, mas tem uma alternativa quanto a isso.
Logo de domínio público
Acesse: http://www.dominiopublico.gov.br
Acesse e leia milhares de livros gratuitos, que já caíram em domínio público, ou seja, os direitos autorais são públicos, qualquer um pode reproduzir o quanto quiser sem penalidades.
Os direitos autorais (ou direitos de autor) duram por setenta anos contados de 1° de janeiro do ano subseqüente ao falecimento do autor. Além das obras em que o prazo de proteção aos direitos excedeu, pertencem ao domínio público também: as de autores falecidos que não tenham deixado sucessores; as de autor desconhecido, ressalvada a proteção legal aos conhecimentos étnicos e tradicionais.[1]
Vai uma indicação: 
http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1888, é de Machado de Assis “Dom Casmurro” excelente.



[1] Fonte de pesquisa: Wikipédia – Br

Por Irineu Magalhães

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