Não fizemos na luz da lua; não
fizemos no escuro. Não fizemos na grama de verão recém-cortada ou nos montes de
folhas de outono ou na neve em que o luar deixava cair as nossas sombras. Não
fizemos no seu quarto na cama de dossel em que você dormia, a cama em que você
dormia quando criança, ou no assento de trás do Rambler enferrujado do meu pai, que cheirava à Kielbasa e às carpas defumadas que ele entregava nos finais de
semana para o açougue do meu tio Vicent. Não fizemos no Buick Eigth da sua mãe, em que um rosário se enrolava no espelho
retrovisor como uma cobra preta de contas com presas de prata em forma de cruz.
No beco sem saída do nosso amor -
uma ruela lateral de fábricas abandonadas - onde aperfeiçoei o beliscão que
abre um sutiã; atrás dos lilases no Marquette
Park, onde você me tocou pela primeira vez através do meu jeans, e os bicos
dos seus seios, inchados contra o algodão transparente,
pareciam da cor dos lilases; no balcão do hoje defunto Clark Theater, onde limpei o sal da pipoca de minhas mãos e
passei-as pelas suas coxas acima e você sussurrou: "Tenho a impressão que
Dorys Day está nos vigiando", não fizemos.
Mas não fizemos, não ao luar, ou
às lanternas fosforescentes dos vaga-lumes em seu quintal, não sob as constelações
que não podíamos ver, muito menos decifrar, ou no fulgor escuro que substituía
a verdadeira escuridão da noite, uma escuridão já roubada de nós, não com a
silhueta dos prédios erguendo-se atrás de nós enquanto uma cidade se arruinava
pouco a pouco, não no calor de verão enquanto a
Guerra Fria campeava, apesar da liberdade da juventude e da
licenciosidade do primeiro amor - em razão de quê, carma, sorte, que
importa? - transformamos o não fazer uma
maravilha, e no entanto não fizemos, não fizemos, nunca fizemos.
Por: Irineu Magalhães
Autor: Stuart Dybek
Título original do livro: We didn't




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