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Poemas de William Blake

William Blake é considerado atualmente um dos mais  importantes poetas de língua inglesa. A personalidade complexa de Blake tornou-o incompreendido e emblemático, para muitos críticos de artes. 

As duas primeiras décadas do século XIX foi de relativa obscuridade artística para o poeta, ocasionado por perdas comerciais, onde conseguiu imprimir em seus trabalhos todo seu desalento.

Blake nasceu em Londres no ano de 1757, e a partir de 1783 viveu exclusivamente dos seus talentos artísticos. Viveu o iluminismo, e além de poeta foi  pintor e tipógrafo. 

Por Irineu Magalhães




Veja abaixo algumas poesias de Blake:


Uma Imagem Divina

A Crueldade tem Humano Coração, 
E tem a Intolerância Humano Rosto; 
O Terror a Divina Humana Forma, 
O Secretismo Humano Traje posto. 

O Humano Traje é Ferro forjado, 
A Humana Forma, Forja incendiada, 
O Humano Rosto, Fornalha bem selada, 
Humano Coração, Abismo seu Esfaimado. 

William Blake, in "Canções da Experiência" 
Tradução de Hélio Osvaldo Alves


O Pequeno Vagabundo

Querida mãe, querida mãe, a igreja é fria
Mas a taverna é saudável, agradável e quente
E posso dizer que lá me tratam bem.
Pois nem no céu passaria tão bem.

Mas se na igreja cerveja pudessem dar
E um bom fogo as nossas almas regalar
Por todo dia rezaríamos e cantaríamos,
e da igreja jamais nos afastaríamos.

Então o pastor poderia pregar e beber e cantar.
Seríamos tão felizes qual aves primaverís a voar,
E a senhora bebedeira sempre na igreja em oração,
Não teria filhos franzinos, nem jejum ou punição.

E Deus como um pai que se regozija em ver
Seus filhos como ele, amáveis e felizes a valer,
Não teria mais querelas com o Diabo e o barril,
mas lhe daria vestes, bebida e beijos mil.


O Jardim do Amor

O Jardim do Amor fui visitar, 
E vi então o que jamais notara: 
Lá bem no meio estava uma Capela, 
Onde eu no prado correra e brincara. 

E os portões desta Capela não abriam, 
E "Não farás" sobre a porta escrito estava; 
E voltei-me então para o Jardim do Amor 
Lá onde toda a doce flor se dava; 

E os túmulos enchiam todo o campo, 
E eram esteias funerárias as flores; 
E Padres de preto, em seu passeio secreto, 
Atando com pavores minhas alegrias & amores. 

William Blake, in "Canções da Experiência" 
Tradução de Hélio Osvaldo Alves


O limpador de chaminés

Eu era bem novo e minha mãe morria, 
E meu pai vendeu-me quando eu mal sabia 
Balbuciar, chorando limpa-dor dor dor dor, 
Assim sujo e escuro sou o limpador. 

Aquele é Tom Dracre, que chorou na vez 
Em que lhe rasparam a cabeça: Vês – 
Consolei-o – Tom que é bom não ter cabelo, 
Pois assim fuligem não te suja o pêlo. 

Assim se acalmou. E numa noite escura 
Tom dormindo teve esta visão futura, 
Que mil limpadores Josés Chicos Joões 
Foram confinados em negros caixões. 

E então veio um Anjo com uma chave branca 
E os tirou do escuro destravando a tranca. 
E então entre risos ao campo saíram 
E entraram num rio e ao Sol reluziram. 

Sem sacos às costas, despida a camisa 
Voaram nas nuvens, brincaram na brisa; 
Disse o Anjo a Tom que, se fosse bonzinho, 
Deus feliz tomava-o como seu filhinho. 

E Tom despertando foi na escuridão 
Apanhar seu saco mais seu esfregão, 
E saiu alegre na manhã gelada. 
Quem seu dever cumpre não receia nada. 


A Imagem Divina

Compaixão, Pena, Paz & Amor, 
Todos lhes rezam no seu sofrimento; 
E a estas virtudes de tanto fulgor 
Entregam o seu agradecimento. 

Compaixão, Pena, Paz & Amor 
É Deus, nosso pai adorado, 
Compaixão, Pena, Paz & Amor 
É o Homem, seu filho amado. 

Tem Compaixão humano coração, 
E tem a Pena uma face humana, 
Amor, a forma divina de eleição 
E a Paz, o traje que irmana. 

Todo o homem, em todo o clima, 
Que, com dor, reza como é capaz, 
Reza à forma humana divina, 
Amor, Compaixão, Pena & Paz. 

A humana forma amar é um dever, 
Para os ateus, os turcos, os judeus; 
Compaixão, Amor & Pena, haja onde houver, 
Também é lá que encontrareis Deus. 

William Blake, in "Canções da Inocência" 
Tradução de Hélio Osvaldo Alves


A resposta da terra

A Terra ergueu a cabeça 
Da escuridão funda e espessa. 
Em pétreo pavor, profundo, 
Sua luz era dispersa. 
Branqueou-lhe a fronte um desespero fundo. 

“Por litorais resguardada 
E pelos céus vigiada, 
Que me encanecem, consomem, 
Ouço, já velha e cansada, 
Chorando, a voz do Pai do antigo Homem! 

“Ó Pai dos homens, ciumento! 
Ó temor cruel e rude! 
Pode o deleite gerar 
As virgens da juventude 
E da aurora, se a noite o acorrentar? 

“Não ri a flórea estação 
Ao ver a flor e o botão? 
Acaso o semeador 
Semeia na escuridão 
E ara na noite negra o lavrador? 

“Quebra a corrente fatal 
Que me regela, ancestral. 
Egoísta e vã, peçonhenta! 
Qual maldição eternal 
Que à servidão o Amor Livre acorrenta.” 


Uma árvore de veneno

Tive ódio ao meu amigo: 
Disse-lhe, e o ódio findou. 
Tive ódio ao meu inimigo: 
Não lhe disse, e o ódio aumentou. 

Dia e noite lhe dei a água, 
Do medo e de minha mágoa; 
Dei-lhe o sol do riso claro, 
Que é só do engodo o anteparo. 

E a árvore cresceu noite e dia, 
E produziu grande pera; 
Meu inimigo, que a via, 
Soube de quem ela era; 

E entrou pelo meu pomar 
Na hora em que o dia se vela; 
E na aurora o fui achar 
Bem estirado sob ela. 



A Humana Súmula

A Piedade deixaria de existir 
Se não fizéssemos nós os Pobres de pedir; 
E a Compaixão também acabaria 
Se a todos, como nós, feliz chegasse o dia. 

E a paz se alcança com mútuo terror, 
Até crescer o egoísmo do amor: 
A Crueldade tece então a sua rede, 
E lança seu isco, cuidadosa, adrede. 

Senta-se depois com temores sagrados, 
E de lágrimas os chãos ficam regados; 
A raiz da Humildade ali então se gera 
Debaixo do seu pé, atenta, espera. 

Em breve sobre a cabeça se lhe estende 
A sombra daquele Mistério que ofende; 
É aí que Verme e Mosca se sustentam 
Do Mistério que ambos acalentam. 

E o fruto que gera é o do Engano 
Doce ao comer e tão malsano; 
E o Corvo o seu ninho ali o faz 
No mais espesso da sombra que lhe apraz. 

Todos os Deuses, quer da terra quer do mar, 
P'la Natureza esta Árvore foram procurar; 
Mas foi em vão esta procura insana, 
Esta Árvore cresce só na Mente Humana. 

William Blake, in "Canções da Experiência" 
Tradução de Hélio Osvaldo Alves


Londres

Vagueio por estas ruas violadas, 
Do violado Tamisa ao derredor, 
E noto em todas as faces encontradas 
Sinais de fraqueza e sinais de dor. 

Em toda a revolta do Homem que chora, 
Na Criança que grita o pavor que sente, 
Em todas as vozes na proibição da hora, 
Escuto o som das algemas da mente. 

Dos Limpa-chaminés o choro triste 
As negras Igrejas atormenta; 
E do pobre Soldado o suspiro que persiste 
Escorre em sangue p'los Palácios que sustenta. 

Mas nas ruas da noite aquilo que ouço mais 
É da jovem Prostituta o seu fadário, 
Maldiz do tenro Filho os tristes ais, 
E do Matrimónio insulta o carro funerário. 

William Blake, in "Canções da Experiência" 
Tradução de Hélio Osvaldo Alves

Por Irineu Magalhães

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